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Quinta-feira | 02/07/2015
Igreja

“Não se deve julgar o livro pela capa”. É o que nós apreendemos bem cedo no caminho da leitura. A Comunidade do Rei [1], livro escrito por Howard Snyder, é um destes livros. Penso que seja o melhor livro sobre Missão da Igreja que li até hoje. Este é um daqueles livros que a gente gostaria muito de ter escrito, se tivéssemos envergadura para tal.

O fato é que as igrejas de hoje, principalmente os protestantes evangélicos, dão pouquíssima atenção à doutrina da igreja. Nos dia de hoje quase não existem escritos evangélicos saudáveis sobre o tema. Por isso, a igreja de hoje é um avião fora da rota neste sentido. Vemos tantas aberrações, que podemos afirmar sem medo de estarmos julgando ou pecando, que algumas denominações nestas questões se parecem mais com empresas – de tão hierárquicas, institucionais e estáticas – que se tornaram.

Fiquei bastante feliz pela forma como o autor concebeu a Igreja de Jesus, sendo o que ela de fato é, a comunidade do povo de Deus. Um povo que foi chamado para servi-lo e chamado a viver junto em uma verdadeira comunidade cristã, em koinonia genuína, testemunhando do caráter e das virtudes do reino de Deus, ou seja, colocando todas as coisas e todos os povos sob o Reinar do senhor Jesus Cristo.

A vocação da igreja é ser o agente do reino de Deus em toda terra, como nos ensina Snyder. Nem a

evangelização, nem a ação social e nem mesmo a vida de adoração da igreja, fazem sentidos, se a igreja não ser vista como a expressão terrena visível do reino de Deus. Segundo Snyder, o evangelho tem o propósito de chamar as pessoas do mundo para o corpo de Cristo, a comunidade dos crentes que tem Jesus Cristo como Rei soberano. Porém este corpo de Cristo deve ser entendido biblicamente como a comunidade do povo de Deus, não como uma abstração meramente teológica em termos das expressões institucionais da igreja.

Deus tem um plano, unir no final dos tempos todas as coisas em Cristo Jesus. Mas neste plano não é somente Deus que age, mas também sua igreja. A igreja é obra de Deus, mas dentro do plano de Deus há espaço para as ações humanas, pois a graça de Deus tem esta grandeza, diz Snyder.

Vemos a igreja realizando a obra de Deus, mas esta obra continuara sendo literalmente de Deus.

Sendo assim, a igreja em relação ao reino de Deus, não é uma eventualidade, é um ato, não é um mero símbolo, é um verdadeiro agente.

Como João pregou o reino de Deus, Jesus também o fez dizendo: “ arrependam-se, pois o reino dos céus esta próximo” fez isso antes da cruz, e ao ressuscitar sua mensagem foi sempre sobre o reino de Deus.

Assim a igreja precisa voltar para este aspecto perdido, ou seja, que Deus esta reinando e reconciliando por intermédio de Cristo e do poder do Espírito Santo tudo e a todos.

O reino de Deus é Jesus Cristo, e por meio da sua igreja a reconciliação de todas as coisas nele. Por enquanto este reino é quase invisível, como um grão de mostarda, mas que está se expandindo e que só aparecerá em plenitude com a volta de Jesus à terra em poder e grande glória.

Devemos tomar algumas atitudes segundo Snyder, enquanto à volta de Jesus não acontece para levar “nossa” igreja a tornar-se mais parecida com uma comunidade do Rei:

Primeiro, estudar com afinco a natureza bíblica da igreja. A pregação e o ensino poderiam ser coordenados com estudos bíblicos individuais e em pequenos grupos, com o tópico a igreja e sua missão, por exemplo.

Segundo, avaliar a qualidade da vida comunitária da igreja. Utilizar, por exemplo, em pequenos grupos o livro “O desenvolvimento natural da igreja”, de Christian Schwarz seria um bom recurso.

Terceiro, Rever o que a Bíblia ensina sobre os dons do Espírito. Ênfase nos dons tanto na pastoral quanto nos pequenos grupos. Estudar passagens como Romanos 12, 1ª Coríntios 12 – 14, Efésios 4 e estudo complementar das doutrinas sobre serviço e do sacerdócio dos crentes.

Quarto, Trabalhar de maneira consciente e contínua para transcender a dicotomia clero-laicato em pensamento e discurso. Devemos banir do vocabulário da igreja o termo “leigo”, nos obrigando a rever nosso entendimento da igreja. Hoje os termos ministro e ministério (ministros profissionais ou ordenados) que não são bíblicos levam a 95% da igreja a se sentirem leigos, ou seja, sem ministérios a executar.

Quinto, considerar a geração de uma ou duas novas congregações a partir da igreja local existente. Algumas igrejas nunca irão crescer se não dividirem. Igrejas bem estruturadas e com algumas centenas de membros devem pensar em juntar algumas famílias que vivem na mesma área, e usa-las como núcleo de uma nova congregação. Isso poderia acontecer em qualquer lugar, salão, sala, garagem alugados, por exemplo. Com o crescimento destas congregações, elas poderiam se dividir novamente no mesmo processo indefinidamente.

Sexto, formar grupos pequenos de comunhão como grupos de missão ou ministérios especiais. Estes grupos poder ser especialmente efetivos para o trabalho social da igreja ou seu testemunho por meio de justiça. A criação de grupos de ministérios ajuda a resolver o problema do “inchaço” ou koinonite” que as vezes aflige as igrejas.

Sétimo, Identificar segmentos da população ao redor especialmente abertos para o evangelho em lugares em que seria possível plantar novas igrejas. Estes grupos podem incluir, pobres de centros decadentes ou periferias, grupos étnicos, pessoas internadas em hospitais, asilos, prisões, a maioria esquecida pela sociedade. Duas ou três famílias, com apoio ativo de toda a igreja, podem iniciar um ministério evangelístico como este, que poderia culminar em uma nova igreja no futuro.

NOTA

[1] SNYDER, Howard A. A comunidade do Rei. São Paulo: ABU Editora, 2004.

Por Por Jonas Ayres

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